“Não quero ir para a escola” – O que fazer quando a criança recusa ir às aulas?

Publicado em Categorizado como Psicologia Clínica
D.R.
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O regresso às aulas pode ser acompanhado por alguma resistência por parte das crianças. Depois de semanas de férias, voltar aos horários, às rotinas e às exigências da escola pode não ser fácil. Mas quando o “não quero ir” se torna frequente e é acompanhado por choro, medo, queixas físicas ou sofrimento intenso, é importante perceber o que está por detrás dessa recusa.

Nem sempre uma criança que diz que não quer ir para a escola está simplesmente a fazer uma birra. A recusa pode ser uma forma de expressar emoções que ainda não consegue identificar ou explicar.

Primeiro passo: tentar perceber o motivo

Antes de insistir ou repreender, é importante ouvir a criança e tentar compreender o que está a sentir. Pode existir uma dificuldade específica por detrás da recusa: ansiedade de separação, medo de falhar, dificuldades de aprendizagem, conflitos com colegas, bullying, alterações na rotina ou até uma situação que a criança tenha dificuldade em verbalizar.

Em vez de perguntar apenas “Porque é que não queres ir?”, podem ser utilizadas perguntas mais abertas e tranquilas, como:

  • “O que é que te custa mais quando vais para a escola?”
  • “Há alguma coisa que te esteja a preocupar?”
  • “Como te sentes quando pensas em ir para a escola?”
  • “Há alguma parte do dia em que te sintas pior?”

É importante dar espaço para a criança responder sem a interromper ou desvalorizar aquilo que está a sentir.

Evitar frases que desvalorizem os sentimentos

Dizer “não tens motivos para estar assim”, “isso não é nada” ou “tens de ir e acabou” pode fazer com que a criança sinta que as suas emoções não são compreendidas.

Validar não significa concordar com a recusa. Significa reconhecer aquilo que a criança está a sentir e mostrar-lhe que pode falar sobre isso.

Uma resposta como “Percebo que estejas preocupado e vamos tentar perceber juntos o que está a acontecer” pode ajudar a criar um espaço de segurança.

Manter as rotinas pode ajudar

Quando existe ansiedade ou resistência em relação à escola, manter uma rotina previsível pode dar à criança uma maior sensação de segurança. Preparar a mochila na noite anterior, estabelecer horários regulares para dormir e acordar e deixar algum tempo para uma manhã tranquila são pequenas estratégias que podem fazer diferença.

Também pode ser útil antecipar aquilo que vai acontecer: explicar quem a vai levar à escola, quando será o momento de despedida e quando poderá voltar para casa.

Não prolongar demasiado o momento da despedida

Quando a criança apresenta ansiedade no momento de entrar na escola, despedidas muito prolongadas podem, em alguns casos, aumentar a dificuldade de separação.

O ideal é criar um ritual de despedida simples, previsível e carinhoso, transmitindo confiança. A criança deve sentir que os adultos acreditam que ela é capaz de enfrentar aquele momento.

Falar com a escola

A família não precisa de lidar sozinha com a situação. Professores, educadores e outros profissionais da escola podem ajudar a perceber se existe alguma mudança no comportamento da criança durante o período escolar.

É importante procurar perceber se a recusa acontece apenas em casa ou se há também sinais na escola, como isolamento, dificuldades de relacionamento, alterações no rendimento ou medo de determinados momentos ou pessoas.

Uma comunicação próxima entre família e escola pode ser essencial para identificar a origem do problema e encontrar estratégias adequadas.

E quando é que devemos procurar ajuda?

Uma recusa pontual, sobretudo depois das férias ou perante uma mudança de rotina, pode fazer parte do processo de adaptação. No entanto, é importante estar atento quando a situação se prolonga ou interfere significativamente com o dia a dia da criança.

Alguns sinais que merecem atenção são:

  • choro frequente ou intenso antes de ir para a escola;
  • queixas recorrentes de dores de barriga ou de cabeça sem causa aparente;
  • dificuldades em dormir ou pesadelos;
  • alterações marcadas no apetite;
  • isolamento ou perda de interesse por atividades de que gostava;
  • medo intenso de ir para a escola;
  • queda repentina no rendimento escolar;
  • alterações significativas de humor ou comportamento;
  • recusa persistente em entrar na escola.

Nestes casos, conversar com um psicólogo pode ajudar a compreender melhor o que está a acontecer e a encontrar estratégias adequadas às necessidades da criança.

Mais do que obrigar, é importante compreender

A recusa em ir para a escola deve ser encarada como um comportamento que pode estar a transmitir uma mensagem. Em vez de olhar apenas para o “não quero ir”, importa tentar perceber o que a criança está a tentar comunicar.

Com escuta, segurança, colaboração entre família e escola e, quando necessário, acompanhamento psicológico, é possível ajudar a criança a enfrentar as dificuldades e a recuperar uma relação mais tranquila com a escola.

Cada criança reage de forma diferente às mudanças e aos desafios. O mais importante é não ignorar sinais persistentes de sofrimento e procurar compreender o que está por detrás deles.